Em branco
Luis Fernando Verissimo
Ideia para uma história. Um dia um homem está lendo um livro e nota que, à medida que lê, o texto vai desaparecendo da página. Letra por letra, linha por linha - simplesmente desaparecendo. Como se os olhos do homem aspirassem o que ele lesse, deixando a página em branco. Apesar de assustado (o que é isto?!), o homem continua a leitura. Quando chega ao final do texto, tem um livro vazio nas mãos. Folheia as páginas brancas e descobre, aqui e ali, algumas coisas que ficaram, porque não foram aspiradas pelos seus olhos. Grande parte da numeração das páginas. Quem lê o número de cada página? Alguns nomes próprios complicados que ele pulara. Um trecho inteiro de descrição da paisagem (sempre achara aborrecido trechos com muita natureza atrasando a história, e se irritava com autores que sabiam todos os nomes da vegetação) que também tinha pulado e permanecera como uma ilha tipográfica no oceano branco das páginas.
O que é aquilo? Que poder - ou que fenómeno oftalmológico, ou que delírio - é aquele? Pega outro livro para ler mas joga-o longe quando se dá conta de que é um policial que acabara de comprar, pois tem o hábito de voltar atrás e consultar páginas já lidas dos policiais para não perder o fio da trama. Também precisa ter cuidado para não fazer o teste com algum livro favorito, que goste de reler. Pega um livro cujo conteúdo não lhe faria falta, cuja aspiração significaria até um serviço para a literatura nacional, e vai abrindo clareiras brancas no texto, com leituras rápidas e salteadas. Incrível! Ele poderia, se quisesse, reduzir enciclopédias a nada. Bastava lê-las. Poderia apagar mundos inteiros. Capinar com os olhos e deixar fulcros no texto de, sei lá, Guerra e Paz como certos jogadores de futebol fazem no seu cabelo.
Mas, pensa, do que me serve este poder? E então tem a ideia. Naquele mesmo dia vai a uma livraria e compra um livro recém-lançado que quer ler. Lê, e volta à livraria para se queixar.
- Comprei este livro aqui há dias e ele está com defeito.
- Como, defeito?
- Veja. O livro está em branco. Totalmente em branco. Só têm os números das páginas.
- Que coisa estranha. Vamos lhe dar outra cópia.
- Não. Quero outro livro ou o meu dinheiro de volta.
- Mas senhor...
- Não quero mais esse. Fiquei traumatizado. Quero outro livro ou o meu dinheiro de volta!
O homem passa a ter livros para, literalmente, devorar, de graça. Só deve cuidar para alternar as livrarias e cuidar para que a repetição do truque não desperte suspeita.
- Lembra do livro que eu comprei aqui há um mês e estava todo branco?
- Lembro...
- Pois aconteceu outra vez.
- O quê?!
- Quero outro livro ou meu dinheiro de volta.
Às vezes o homem não gosta do livro e o devolve antes de terminar a leitura.
- Olhe, metade das páginas está em branco... Quero outro.
Todas as parábolas, mesmo as mais obscuras, devem conter uma lição moral. Ainda mais esta, que, se a entendi bem, é sobre interferências nocivas no funcionamento normal do comércio de livros, na indústria editorial e, principalmente, nos direitos dos autores, além da sofreguidão humana. Pois eis a lição: um dia o homem começa a regurgitar tudo o que aspirou dos livros por todos os seus orifícios e paga pela sua falcatrua, morrendo no chão do banheiro de uma indigestão de leitura. E bem feito.
Domingo, 17 de agosto de 2008.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.